A quem pertence o corpo? A questão da Cracolândia em São Paulo

Postado em 04 de julho de 2017

 

Por Rabino Samy Pinto

 

Recentemente, uma ação do prefeito de São Paulo, João Doria, chamou a atenção para a questão da região da cidade conhecida com Cracolândia. Os noticiários e as mídias sociais voltaram seus olhos virtuais para a situação das pessoas do local e das áreas em volta, e levantaram discussões sobre como resolver o problema do vício e do tráfico, que aflige o município. Diversas posições sobre o assunto foram apresentadas, partindo de muitos pontos de vistas diferentes. Considerando as muitas opiniões que surgiram, este é um momento válido para agregar a esse debate a visão do judaísmo sobre o tema, e, nesse caso, focando nas questões do vício, da causa e da prevenção.

 

Para desenvolver bem esses assuntos, é preciso começar por entender um conceito judaico importante que responde a questão: a quem pertence o corpo da pessoa?

 

Hoje em dia, a resposta que a sociedade encontra para essa pergunta é rápida e preza pela liberdade do sujeito. O corpo é da pessoa, e ela tem o direito de optar e fazer o que quiser com ele. Nesse sentido, na comunidade liberal, se alguém fizer algum mal a si próprio, sem ferir o próximo, está dentro do direito dela e ninguém tem que interferir nisso.

 

Se contrapondo a essa resposta da sociedade atual, está a visão judaica. Posição que parte do princípio de que há um Criador, e que a criação tem um propósito e um significado de vida. Logo, todos são obras de Deus, fazendo com que o corpo do indivíduo não seja dele, mas sim, um presente que lhe foi dado e que precisa ser cuidado com muita responsabilidade. Portanto, se a pessoa não cuida bem de si mesma, está cometendo um erro, um pecado, ou até mesmo um crime, visto que no judaísmo são entendidos como a mesma coisa.

 

Pela lógica da sociedade liberal, o sujeito é o responsável pelo mal que faz a si mesmo, e ninguém tem que se envolver com essas escolhas, além da própria pessoa. Seja no uso das drogas, ou mesmo em coisas mais corriqueiras, como o consumo excessivo de açúcar e sal, que se sabe fazer mal para o organismo, a pessoa pode fazer o que quiser e ela que lide com as consequências de seus atos. O raciocínio judaico proíbe isso, se o indivíduo faz qualquer coisa que prejudique sua saúde, está errado e comete um pecado, um crime contra ele mesmo.

 

Mas e a questão do livre arbítrio? Se o ser-humano tem o livre arbítrio, ele não pode fazer o que ele quiser?

 

O livre arbítrio trabalha dentro do que é certo e errado, e a escolha fica entre seguir uma dessas duas opções. Deixar claro que quem come muito açúcar, bebe muito álcool, fuma maconha e prejudica sua saúde, está errado e seguir nessas práticas é um crime. Quando o assunto em questão são as drogas e o vício, a capacidade de decisão do usuário começa a ficar turva, não há mais como reconhecer o que faz bem e o que faz mal. Ele não consegue mais decidir entre o certo e o errado, perdendo o poder de escolha que lhe foi entregue.

 

A questão da Cracolândia exemplifica bem essa situação de incapacidade de cuidar da própria saúde. Uma pesquisa realizada recentemente aponta que 31% dos usuários da região entraram no vício devido a conflitos familiares ou problemas afetivos. O que mostra que ao entrarem nesse mundo já estavam abalados emocionalmente, o que podia impedir a clareza na hora da decisão.

 

Além disso, ao avaliarmos todo um quadro geral das pessoas que frequentam a região, a Cracolândia se torna um problema de gestão pública. Temos uma série de indivíduos que está morando na rua, que tem suas famílias desestruturadas, que não estuda, que depende de uma saúde e educação pública que não atende suficientemente bem, que vive com uma alimentação precária e com a crise no país não tem oportunidades de emprego. Todos os fatores levam até esse problema. Então o que fazer?

 

Na visão judaica, a responsabilidade é do indivíduo, depois da família e depois de um tribunal – seguindo essa ordem. Se os pais veem um filho dependente de algum tipo de droga, eles irão internar ele involuntariamente. Não vão querer saber se ele está de acordo ou não. Se espera que a família assuma essa responsabilidade que ele não consegue assumir, de preservar a saúde de seu corpo. Caso a mesma não esteja apta, então o tribunal da sociedade deve tomar esse encargo para si. Nesse caso, o Juiz deve autorizar ou não a internação compulsória, tendo sua decisão respeitada. O que não pode acontecer é queimar etapas: primeiro a decisão pela internação voluntaria (indivíduo), depois involuntária (família) e em último caso a compulsória (juiz).

 

Para concluir a questão, é importante apontar, como afirmamos anteriormente, para o papel fundamental que a família tem na luta contra as drogas. De acordo com a pesquisa, conflitos familiares e problemas afetivos são as principais causas que levaram as pessoas para a Cracolândia, as drogas acabam preenchendo um vazio deixado por pais, cônjuges, filhos e familiares. Trabalhar para estruturar melhor as famílias dentro da sociedade é a medida mais eficaz contra esse mal.

 

Investir em ações de caráter socioeducativo, incentivando diálogos dentro e fora de casa, e apoio ao potencial criativo e profissional de cada pessoa, devia ser o foco do trabalho no combate as drogas, assim resolvendo a médio prazo, a questão da Cracolândia permanentemente.

 

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SOBRE RABINO SAMY PINTO

O Rabino Samy Pinto é formado em Ciências Econômicas, se especializou em educação em Israel, na Universidade Bar-llan, mas foi no Brasil que concluiu seu mestrado e doutorado em Letras e Filosofia, pela Universidade de São Paulo (USP). O Rav. Samy Pinto ainda é diplomado Rabino pelo Rabinato chefe de Israel, em Jerusalém, e hoje é o responsável pela sinagoga Ohel Yaacov, situada no Jardins também conhecida como sinagoga da Abolição

 

 

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