Quando as luzes se apagam

Postado em 06 de junho de 2013

 

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O glamour que faz parte da sua vida. Pessoas por todos os lados, badalação, convites, contratos de trabalho e tudo mais. Os holofotes te iluminam, tudo parece mágico. Estás inserido no mundo da fama, da TV e do teatro. Mas o que ocorre quanto tudo isso acaba? O que ocorre quando o abandono chega?

 

De longe podia perceber sua bancada de cartas e búzios, iluminada por sua vela que já era marca no bairro, era seu trabalho, sua missão no calçadão de Copacabana, o sustento, sua realidade de vida. Passados os anos dourados, em que tudo parecia ser perfeito, eis que o ator Carlos Tatiano se encontrou na necessidade de recorrer à sua fé espiritual para poder sobreviver.

 

Me refiro ao meu amigo, que estreou novelas de grande sucesso na TV Globo nos anos 1980. Fez parte de uma época marcante da TV brasileira, em que a maioria dos atores vencia pelo talento e não por quem os indicasse.

 

O conheci no tempo em que trabalhei na noite carioca. Bem diferente de anos passados, Wladiz (seu nome espiritual) se dedicou a dar conselhos, luz e encaminhamento a todos que, por tantos anos vagaram pelo bairro. Era uma espécie de conselheiro, psicólogo, não só das prostitutas, mas de muitos outros que tinham na noite sua forma de viver Por fazer parte do cotidiano do bairro, o inseri no meu livro, para que, de alguma forma, deixasse alguma mensagem sobre o que representou pra mim e muitas outras pessoas que ali passaram.

 

Com tristeza, recebi na última semana a notícia de que ele está sofrendo de uma doença em que perde subitamente sua memória, não se lembrando de pessoas que fazem ou fizeram parte de sua vida. Ele agora vive, de forma revezada o atual e o passado, ao mesmo tempo que se lembra, do nada, se esquece de tudo. Ao menos me faz feliz saber que, quando seu único amigo no Rio, o Emílio fala de mim, ele sorri e se lembra.

 

Não é de hoje que, artistas são esquecidos após seus momentos de fama, tais quais Norma Bengell, Wilza Carla que, inclusive, por testemunho de meu pai no período em que ele esteve internada no HC de Suzano, tinha o abandono constante de amigos e familiares, apenas tendo a visita de sua filha Paola, morrendo anos depois abandonada por todos. Poucos foram ao seu enterro.

 

O imediatismo da fama, cega artistas e fãs. Pois em muitos casos, lá na frente, quando as luzes se apagam, o sentimento, que antes era de um aparente amor, se acaba. A relação mútua passa a não existir mais. É assustador ver o número imenso de artistas que são abandonados pelos fãs, amigos e familiares.

 

Deixo um agradecimento especial à querida Cida Cabral, Coordenadora do Retiro dos Artistas no Rio de Janeiro pelo solidarismo e atenção quando passei-lhe a situação do meu amigo Carlos Tatiano. É confortante saber que, quando muitos que nos conhecem nos abandonam, alguns antes desconhecidos, nos abraçam.

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.Foto: André Henriques

Sidnei Eclache

sidneieclache@hotmail.com

(21) 8175-5448

 

 

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