{"id":2433,"date":"2012-11-19T15:46:55","date_gmt":"2012-11-19T15:46:55","guid":{"rendered":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/?p=2433"},"modified":"2012-11-19T15:46:55","modified_gmt":"2012-11-19T15:46:55","slug":"entrevista-com-benicio-campos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/entrevista-com-benicio-campos","title":{"rendered":"Entrevista com Ben\u00edcio Campos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como foi parar em Mocuba, prov\u00edncia de Zamb\u00e9zia em Mo\u00e7ambique?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio Campos<\/strong> &#8211; Cheguei a Mo\u00e7ambique em outubro de 2007 como mission\u00e1rio. Nos primeiros anos o objetivo era conhecer as pessoas, a cultura, os valores do povo mo\u00e7ambicano. Enquanto aprendia tamb\u00e9m auxiliava o diretor da miss\u00e3o da Coreia, o senhor Sang Bum Lee, um pastor que estava aqui h\u00e1 muitos anos. Ele conhece e ama profundamente este pa\u00eds. A miss\u00e3o tinha como parte do seu programa, visitar o Norte do pa\u00eds para a implanta\u00e7\u00e3o de igrejas e encorajamento das que j\u00e1 existiam, logo eu passei a coordenar essas viagens e logo me vi comovido com a situa\u00e7\u00e3o deles. Depois do meu casamento com a Guida, que est\u00e1 gr\u00e1vida e \u00e9 mo\u00e7ambicana, fui ordenado a pastor e em seguida recebemos a proposta de viver em Mocuba e como o meu cora\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava aqui, aqui estou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual projeto levou?\u00a0Por interm\u00e9dio de quem?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Meu trabalho era de supervisionar as igrejas, dar treinamento aos l\u00edderes, realizar os sacramentos em cinco dos dez estados de Mo\u00e7ambique, mas principalmente trabalhar no desenvolvimento da comunidade onde fui instalado, a saber, bairro Samora Machel, Mocuba. Samora Machel \u00e9 uma aldeia gigantesca com cerca de 60.000 pessoas entre crian\u00e7as e adultos que sobrevivem de lavouras pessoais e que est\u00e3o abaixo do n\u00edvel da pobreza. Fui enviado do Brasil para c\u00e1 por uma miss\u00e3o coreana chamada Global Partners, mas em Mo\u00e7ambique trabalho diretamente com a Miss\u00e3o da Coreia que desenvolve em Mo\u00e7ambique in\u00fameros projetos como desenvolvimento integral da crian\u00e7a e da comunidade, escola t\u00e9cnica de agricultura, escolas secund\u00e1rias, semin\u00e1rios, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como o povo de Mocuba recebeu voc\u00ea e este projeto?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Mo\u00e7ambique sofreu com a coloniza\u00e7\u00e3o at\u00e9 1975, isso interfere muito na rela\u00e7\u00e3o do povo com qualquer estrangeiro ainda hoje. Quando cheguei, eles me viam como &#8220;patr\u00e3o&#8221;, me chamavam de branco, na cidade ainda sou um &#8220;branco&#8221;. S\u00f3 na aldeia onde trabalho e onde viverei daqui a poucos dias \u00e9 que tem mudado um pouco essa perspectiva sobre mim. Eu particularmente n\u00e3o gosto de ser visto como um patr\u00e3o, porque n\u00e3o sou e porque n\u00e3o quero ser visto como algu\u00e9m acima deles, isso n\u00e3o me ajuda em nada porque dessa forma eu n\u00e3o consigo alcan\u00e7ar cora\u00e7\u00f5es. Eu desejo ser reconhecido como um servo que veio para lhes ajudar a descobrir o caminho para um futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2434\" title=\"fami2-18-11-12\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/fami2-18-11-12.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/fami2-18-11-12.jpg 400w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/fami2-18-11-12-333x250.jpg 333w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual a sua fun\u00e7\u00e3o hoje neste local?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Eu pastoreio uma igreja em Mocuba e participo ativamente na vida da comunidade, carrego caix\u00f5es, levo gr\u00e1vidas para o hospital, socorro os enfermos, assim \u00e9 meu dia a dia. Neste ano preparamos documentos de crian\u00e7as e adolescentes para entrarem na escola, matriculamos e confeccionamos uniformes escolares. Recebemos doa\u00e7\u00f5es da Coreia de roupas, esteiras t\u00e9rmicas e material escolar. Isso me ajudou a descobrir meu pr\u00f3prio caminho. Tenho vivido mais perto da juventude, aconselhando, dando palestras e procurando mostrar para eles o valor que eles t\u00eam. Eu sou crist\u00e3o, creio que o evangelho de Jesus o Cristo tem poder para transformar pessoas e dar-lhes um sentido para a vida. Vivendo em Mocuba h\u00e1 quase dois anos, percebi que a minha vida s\u00f3 ter\u00e1 sentido se eu falar menos e fizer mais. Por isso, em 2013, meu maior investimento de tempo e recurso ser\u00e1 num projeto social que foca toda a comunidade a come\u00e7ar pelas crian\u00e7as. N\u00e3o estou sozinho nesse prop\u00f3sito, o Kiko Bispo e o Wesley Penteado, desde que vieram aqui no \u00faltimo janeiro, foram tamb\u00e9m impactados por essa mesma necessidade de ajudar esse povo lindo e am\u00e1vel. Foi atrav\u00e9s deles que registramos as crian\u00e7as, fizemos os uniformes e as colocamos na escola. S\u00e3o eles que &#8220;encabe\u00e7am&#8221; o projeto Mocuba para o furo de um po\u00e7o artesiano para a comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Qual a maior car\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Educa\u00e7\u00e3o no sentido mais amplo da palavra. Aqui, crian\u00e7as na oitava s\u00e9rie, mal podem escrever o pr\u00f3prio nome. N\u00e3o h\u00e1 perspectiva alguma para o futuro delas. Isso n\u00e3o \u00e9 viver, \u00e9 subsist\u00eancia prec\u00e1ria. A maior dificuldade \u00e9 despertar dignidade nas meninas. Elas j\u00e1 nascem sabendo o que lhes aguarda. Mal chegam \u00e0 puberdade e o seu futuro \u00e9 brutalmente usurpado. Os homens em geral se aproveitam da extrema pobreza e por m\u00edseros trocados, defloram as meninas quase todas. Na escola cerca de 70% das meninas j\u00e1 sofreram algum tipo violento de ass\u00e9dio em troca de notas. Elas j\u00e1 crescem sabendo que mais dia, menos dia, estar\u00e3o ou com SIDA ou com filhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea est\u00e1 com mal\u00e1ria pela 13\u00aa vez. Como \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Antes de eu ter mal\u00e1ria pela primeira vez, quando encontrava algu\u00e9m com essa doen\u00e7a eu dava uns tapinhas nas costas e dizia: vai passar? &#8220;Briguei com Deus&#8221; na primeira vez que me aconteceu, mas logo agradeci por experimentar na pr\u00f3pria pele o que o povo mo\u00e7ambicano sofre na realidade. Hoje respeito um doente porque sei exatamente o que ele est\u00e1 sentindo. Pulo de alegria quando vejo uma crian\u00e7a vencendo a mal\u00e1ria, n\u00e3o sei como ela pode suportar aquilo, porque todos n\u00f3s sabemos que a mal\u00e1ria mata muitas crian\u00e7as diariamente em \u00c1frica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>E a falta de \u00e1gua? Como se viram com isso?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Em Mo\u00e7ambique j\u00e1 existe um sistema de abastecimento de \u00e1gua que atua nas principais cidades do pa\u00eds. Esse sistema poderia ter avan\u00e7ado muito, mas como todos n\u00f3s sabemos, a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 em todos os lugares e quem paga sempre \u00e9 a maioria, a popula\u00e7\u00e3o. As pessoas de modo geral recorrem aos rios e tamb\u00e9m aos po\u00e7os artesianos que s\u00e3o furados, a maioria deles em parceria com o governo. A grande dificuldade que se enfrenta ao furar um po\u00e7o \u00e9 o seu pre\u00e7o. Essas empresas cobram muito caro. Em Mocuba, por exemplo, a maior parte das pessoas vai para o rio Licungo ou rio Lugela, mesmo tendo ocorr\u00eancias de ataque de crocodilos. N\u00e3o existem outras op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Governo da \u00c1frica do Sul n\u00e3o colabora?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Mo\u00e7ambique recebe muita ajuda externa, o problema que vejo \u00e9 a falta de redistribui\u00e7\u00e3o justa. Um pa\u00eds governado por um \u00fanico partido \u00e9 mais propenso a esse tipo de situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Existem projetos do Brasil que beneficiam as crian\u00e7as desta comunidade?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; Existem apoios informais, mas o Kiko e Wesley e suas comunidades no Brasil se juntaram conosco para formalizarmos esse projeto de desenvolvimento da comunidade atrav\u00e9s do desenvolvimento integral das crian\u00e7as. Temos em Maputo projetos desse tipo que est\u00e3o sendo feitos em parceria com Korea Food for Hangry International. Teremos encontro com eles j\u00e1 que em janeiro meus amigos estar\u00e3o novamente aqui. O projeto funciona basicamente com pessoas que adotam financeiramente uma crian\u00e7a e atrav\u00e9s da gente tem contato com ela e acompanha passo a passo do seu desenvolvimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como funciona o Projeto Mo\u00e7ambique Musical que tem o m\u00fasico suzanense Kiko Bispo como um dos idealizadores?<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ben\u00edcio<\/strong> &#8211; O Kiko, como g\u00eanio musical que \u00e9, veio para c\u00e1 para conhecer e para contribuir com o seu dom, a m\u00fasica. O que poucos sabem \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o dele \u00e9 imenso e logo que ele chegou, j\u00e1 foi comovido com a nossa realidade. Ele ensinou m\u00fasica para as crian\u00e7as, ele deu palestras sobre a m\u00fasica na igreja, mas tamb\u00e9m tirou tudo o que tinha nos bolsos e doou para o projeto &#8220;Toda Crian\u00e7a na Escola&#8221;. Sem dizer que veio com malas cheias de creme dental, escovas de dente, l\u00e1pis e canetas. O Projeto Mo\u00e7ambique Musical come\u00e7ou com musicaliza\u00e7\u00e3o infantil, mas agora est\u00e1 se tornando incrivelmente abrangente. Pode se dizer que o Projeto Mocuba \u00e9 a continuidade do projeto Mo\u00e7ambique Musical.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>JOGO R\u00c1PIDO<\/strong><\/p>\n<p align=\"center\">\n<strong>Um lugar<\/strong> &#8211; Blyde river canyon (South Africa)<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Um filme<\/strong> &#8211; Patch adams &#8211; o amor \u00e9 contagioso<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Uma m\u00fasica<\/strong> &#8211; Can\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Um momento<\/strong> &#8211; Convers\u00e3o Deus &#8211; Inerente<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Fam\u00edlia<\/strong> &#8211; Plenitude<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Uma mulher<\/strong> &#8211; Madre Teresa de Calcut\u00e1<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Um homem<\/strong> &#8211; Benjamim\u00a0(meu pai)<\/p>\n<p align=\"center\">\n<p align=\"center\">Fotos: Arquivo Pessoal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Como foi parar em Mocuba, prov\u00edncia de Zamb\u00e9zia em Mo\u00e7ambique? &nbsp; Ben\u00edcio Campos &#8211; Cheguei a Mo\u00e7ambique em outubro [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2435,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[24],"class_list":["post-2433","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coluna","tag-entrevista"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2433"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2437,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2433\/revisions\/2437"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2435"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}