{"id":40171,"date":"2019-02-21T10:42:35","date_gmt":"2019-02-21T13:42:35","guid":{"rendered":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/?p=40171"},"modified":"2019-02-21T11:48:59","modified_gmt":"2019-02-21T14:48:59","slug":"os-15-maiores-poemas-de-amor-da-literatura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/os-15-maiores-poemas-de-amor-da-literatura-brasileira","title":{"rendered":"Os 15 maiores poemas de amor da literatura brasileira"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 bastante prov\u00e1vel que os primeiros versos tenham brotado da boca de um apaixonado, jamais saberemos. A verdade incontorn\u00e1vel \u00e9 que o amor \u00e9 tema recorrente entre os poetas e alvo de interesse constante entre os leitores.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 poeta, mas sente vontade de gritar para o mundo &#8211; e para a sua amada &#8211; versos apaixonados, n\u00f3s damos uma ajudinha! Selecionamos aqui os quinze maiores poemas de amor da literatura brasileira publicados. A tarefa n\u00e3o foi nada f\u00e1cil, a poesia nacional \u00e9 riqu\u00edssima e cada um dos autores escolhidos facilmente poderia\u00a0ter outros belos poemas inclu\u00eddos nessa lista.<\/p>\n<p>Para tentar cobrir uma boa parte da nossa hist\u00f3ria liter\u00e1ria, passeamos\u00a0pelos antigos \u00c1lvares de Azevedo e Olavo Bilac at\u00e9 alcan\u00e7armos os contempor\u00e2neos Paulo Leminski e Chico Buarque.<\/p>\n<p>Boa leitura e compartilhem com os seus amados!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong><em>Soneto do amor total<\/em>, de Vin\u00edcius de Moraes<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Pesquisar os livros do\u00a0poetinha, como ficou\u00a0conhecido Vin\u00edcius de Moraes, \u00e9 se deparar com um manancial de poemas de amor. Apaixonado pela vida e pelas mulheres,\u00a0Vin\u00edcius casou-se nove vezes e escreveu uma s\u00e9rie de versos apaixonados. O poema mais conhecido talvez seja o\u00a0<u>Soneto de fidelidade<\/u>.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>Soneto do amor total\u00a0<\/em>foi escolhido porque tem uma delicadeza \u00edmpar e ilustra com precis\u00e3o as v\u00e1rias facetas de uma rela\u00e7\u00e3o amorosa.<\/p>\n<p><strong>Soneto do amor total<\/strong><\/p>\n<p>Amo-te tanto, meu amor\u2026 n\u00e3o cante<br \/>\nO humano cora\u00e7\u00e3o com mais verdade\u2026<br \/>\nAmo-te como amigo e como amante<br \/>\nNuma sempre diversa realidade<\/p>\n<p>Amo-te afim, de um calmo amor prestante,<br \/>\nE te amo al\u00e9m, presente na saudade.<br \/>\nAmo-te, enfim, com grande liberdade<br \/>\nDentro da eternidade e a cada instante.<\/p>\n<p>Amo-te como um bicho, simplesmente,<br \/>\nDe um amor sem mist\u00e9rio e sem virtude<br \/>\nCom um desejo maci\u00e7o e permanente.<\/p>\n<p>E de te amar assim muito e ami\u00fade,<br \/>\n\u00c9 que um dia em teu corpo de repente<br \/>\nHei de morrer de amar mais do que pude.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40189\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/1-1-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/1-1-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/1-1.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong><em>Tenta-me de novo<\/em>, de Hilda Hilst<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Hilda Hilst tamb\u00e9m \u00e9 um nome incontorn\u00e1vel quando se pensa em amor na poesia brasileira. A escritora paulista escreveu versos que v\u00e3o desde a escrita er\u00f3tica at\u00e9 a l\u00edrica idealizada.<\/p>\n<p>Quando se pensa em poesia de amor, o mais frequente \u00e9 que se imagine\u00a0versos de uma rela\u00e7\u00e3o jovem.\u00a0<em>Tenta-me de novo\u00a0<\/em>\u00e9 um dos raros poemas que trata de um amor que j\u00e1 acabou e de um\u00a0amante\u00a0que deseja conquistar o afeto de volta.<\/p>\n<p><strong>Tenta-me de novo<\/strong><\/p>\n<p>E por que haverias de querer minha alma<br \/>\nNa tua cama?<br \/>\nDisse palavras l\u00edquidas, deleitosas, \u00e1speras<br \/>\nObscenas, porque era assim que gost\u00e1vamos.<br \/>\nMas n\u00e3o menti gozo prazer lasc\u00edvia<br \/>\nNem omiti que a alma est\u00e1 al\u00e9m, buscando<br \/>\nAquele Outro. E te repito: por que haverias<br \/>\nDe querer minha alma na tua cama?<br \/>\nJubila-te da mem\u00f3ria de coitos e acertos.<br \/>\nOu tenta-me de novo. Obriga-me.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40190\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/2-2-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/2-2-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/2-2.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong><em>Can\u00e7\u00e3o<\/em>, de Cec\u00edlia Meireles<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Em apenas quinze versos, Cec\u00edlia Meireles consegue compor na sua\u00a0<em>Can\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0uma ode \u00e0\u00a0urg\u00eancia do amor. Singelo e direto, os versos convocam o retorno do amado. O poema, presente no livro\u00a0<em>Retrato natural<\/em>\u00a0(1949), tamb\u00e9m conjuga elementos recorrentes na l\u00edrica da poetisa: a finitude do tempo, a transitoriedade do amor, o movimento do vento.<\/p>\n<p><strong>Can\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o te fies do tempo nem da eternidade,<br \/>\nque as nuvens me puxam pelos vestidos<br \/>\nque os ventos me arrastam contra o meu desejo!<br \/>\nApressa-te, amor, que amanh\u00e3 eu morro,<br \/>\nque amanh\u00e3 morro e n\u00e3o te vejo!<br \/>\nN\u00e3o demores t\u00e3o longe, em lugar t\u00e3o secreto,<br \/>\nn\u00e1car de sil\u00eancio que o mar comprime,<br \/>\no l\u00e1bio, limite do instante absoluto!<br \/>\nApressa-te, amor, que amanh\u00e3 eu morro,<br \/>\nque amanh\u00e3 eu morro e n\u00e3o te escuto!<br \/>\nAparece-me agora, que ainda reconhe\u00e7o<br \/>\na an\u00eamona aberta na tua face<br \/>\ne em redor dos muros o vento inimigo\u2026<br \/>\nApressa-te, amor, que amanh\u00e3 eu morro,<br \/>\nque amanh\u00e3 eu morro e n\u00e3o te digo\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40191\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/3-1-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/3-1-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/3-1.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong><em>As sem-raz\u00f5es do amor<\/em>, de Carlos Drummond de Andrade<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Celebrado como um dos melhores poemas da literatura brasileira,\u00a0<em>As sem-raz\u00f5es do amor<\/em>\u00a0trata da espontaneidade do amor. De acordo com o eu l\u00edrico,\u00a0o amor arrebata e arrasta o amador independente da atitude do parceiro. O pr\u00f3prio t\u00edtulo do poema j\u00e1 indica como os versos ir\u00e3o se desdobrar: o amor n\u00e3o exige troca, n\u00e3o \u00e9 resultado do merecimento e n\u00e3o pode ser definido.<\/p>\n<p><strong>As sem-raz\u00f5es do amor<\/strong><\/p>\n<p>Eu te amo porque te amo.<br \/>\nN\u00e3o precisas ser amante,<br \/>\ne nem sempre sabes s\u00ea-lo.<br \/>\nEu te amo porque te amo.<br \/>\nAmor \u00e9 estado de gra\u00e7a<br \/>\ne com amor n\u00e3o se paga.<\/p>\n<p>Amor \u00e9 dado de gra\u00e7a,<br \/>\n\u00e9 semeado no vento,<br \/>\nna cachoeira, no eclipse.<br \/>\nAmor foge a dicion\u00e1rios<br \/>\ne a regulamentos v\u00e1rios.<\/p>\n<p>Eu te amo porque n\u00e3o amo<br \/>\nbastante ou de mais a mim.<br \/>\nPorque amor n\u00e3o se troca,<br \/>\nn\u00e3o se conjuga nem se ama.<br \/>\nPorque amor \u00e9 amor a nada,<br \/>\nfeliz e forte em si mesmo.<\/p>\n<p>Amor \u00e9 primo da morte,<br \/>\ne da morte vencedor,<br \/>\npor mais que o matem (e matam)<br \/>\na cada instante de amor.<\/p>\n<p>Voc\u00ea conhece\u00a0<u>No meio do caminho tinha uma pedra<\/u>, outro grande poema de Drummond?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40177\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/4-2-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/4-2-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/4-2.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong><em>XXX<\/em>, de Olavo Bilac<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O poema de amor provavelmente mais citado de Bilac \u00e9\u00a0<em>Via L\u00e1ctea<\/em>, um cl\u00e1ssico aprendido nos tempos de escola. Os versos abaixo, no entanto, apesar de pouco conhecidos, s\u00e3o tamb\u00e9m uma obra prima do autor. O poeta, que atuou como jornalista, foi um dos maiores representantes do movimento Parnasiano no Brasil e a sua l\u00edrica \u00e9 marcada pela metrifica\u00e7\u00e3o e pela representa\u00e7\u00e3o de um sentimento idealizado.<\/p>\n<p><strong>XXX<\/strong><\/p>\n<p>Ao cora\u00e7\u00e3o que sofre, separado<br \/>\nDo teu, no ex\u00edlio em que a chorar me vejo,<br \/>\nN\u00e3o basta o afeto simples e sagrado<br \/>\nCom que das desventuras me protejo.<br \/>\nN\u00e3o me basta saber que sou amado,<br \/>\nNem s\u00f3 desejo o teu amor: desejo<br \/>\nTer nos bra\u00e7os teu corpo delicado,<br \/>\nTer na boca a do\u00e7ura de teu beijo.<br \/>\nE as justas ambi\u00e7\u00f5es que me consomem<br \/>\nN\u00e3o me envergonham: pois maior baixeza<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 que a terra pelo c\u00e9u trocar;<br \/>\nE mais eleva o cora\u00e7\u00e3o de um homem<br \/>\nSer de homem sempre e, na maior pureza,<br \/>\nFicar na terra e humanamente amar.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40178\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/5-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/5-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/5.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong><em>Futuros amantes<\/em>, de Chico Buarque<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O mais conhecido letrista brasileiro tem uma s\u00e9rie de versos dedicados ao\u00a0amor. S\u00e3o tantos que \u00e9 at\u00e9 criminoso selecionar apenas um poema do manancial de belezas j\u00e1 escritas. No entanto, diante do desafio, escolhemos\u00a0<em>Futuros amantes<\/em>, um daqueles cl\u00e1ssicos que nunca perde a validade.<\/p>\n<p><strong>Futuros amantes<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se afobe, n\u00e3o<br \/>\nQue nada \u00e9 pra j\u00e1<br \/>\nO amor n\u00e3o tem pressa<br \/>\nEle pode esperar em sil\u00eancio<br \/>\nNum fundo de arm\u00e1rio<br \/>\nNa posta-restante<br \/>\nMil\u00eanios, mil\u00eanios<br \/>\nNo ar<\/p>\n<p>E quem sabe, ent\u00e3o<br \/>\nO Rio ser\u00e1<br \/>\nAlguma cidade submersa<br \/>\nOs escafandristas vir\u00e3o<br \/>\nExplorar sua casa<br \/>\nSeu quarto, suas coisas<br \/>\nSua alma, desv\u00e3os<\/p>\n<p>S\u00e1bios em v\u00e3o<br \/>\nTentar\u00e3o decifrar<br \/>\nO eco de antigas palavras<br \/>\nFragmentos de cartas, poemas<br \/>\nMentiras, retratos<br \/>\nVest\u00edgios de estranha civiliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>N\u00e3o se afobe, n\u00e3o<br \/>\nQue nada \u00e9 pra j\u00e1<br \/>\nAmores ser\u00e3o sempre am\u00e1veis<br \/>\nFuturos amantes, qui\u00e7\u00e1<br \/>\nSe amar\u00e3o sem saber<br \/>\nCom o amor que eu um dia<br \/>\nDeixei pra voc\u00ea<\/p>\n<p>Chico tamb\u00e9m \u00e9 celebrado\u00a0por seus versos pol\u00edticos e sociais, se quiser conhecer dois incr\u00edveis poemas desse g\u00eanero clique aqui:\u00a0<u>Constru\u00e7\u00e3o<\/u>\u00a0e\u00a0<u>C\u00e1lice<\/u>.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40179\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/6-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/6-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/6.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong><em>Meu destino<\/em>, de Cora Coralina<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Singelo e cotidiano,<em>\u00a0Meu destino<\/em>, da goiana Cora Coralina, merece elogios pela maneira simples e sutil com que relata o encontro amoroso. A poetisa, com a delicadeza dos versos que comp\u00f5e, faz parecer f\u00e1cil construir uma rela\u00e7\u00e3o de afeto duradoura.\u00a0<em>Meu destino<\/em>\u00a0conta uma pequena f\u00e1bula: a\u00a0hist\u00f3ria de duas pessoas que se conheceram e resolvem construir uma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Meu destino<\/strong><\/p>\n<p>Nas palmas de tuas m\u00e3os<br \/>\nleio as linhas da minha vida.<br \/>\nLinhas cruzadas, sinuosas,<br \/>\ninterferindo no teu destino.<br \/>\nN\u00e3o te procurei, n\u00e3o me procurastes \u2013<br \/>\n\u00edamos sozinhos por estradas diferentes.<br \/>\nIndiferentes, cruzamos<br \/>\nPassavas com o fardo da vida\u2026<br \/>\nCorri ao teu encontro.<br \/>\nSorri. Falamos.<br \/>\nEsse dia foi marcado<br \/>\ncom a pedra branca<br \/>\nda cabe\u00e7a de um peixe.<br \/>\nE, desde ent\u00e3o, caminhamos<br \/>\njuntos pela vida\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40180\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/7-1-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/7-1-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/7-1.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"8\">\n<li><strong><em>Teresa<\/em>, de Manuel Bandeira<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>Teresa<\/em>\u00a0\u00e9 um dos poemas mais marcantes do modernismo brasileiro, todos n\u00f3s, provavelmente, fomos apresentados a esses versos ainda na escola.<\/p>\n<p><em>Teresa<\/em>\u00a0consta nessa lista porque \u00e9 um dos poucos poemas de amor capaz de conter tra\u00e7os de humor. A comicidade de Bandeira surge com a descri\u00e7\u00e3o da rea\u00e7\u00e3o durante o primeiro encontro do casal. Os versos depois se encarregam de mostrar como o relacionamento se transforma e a percep\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a amada muda.<\/p>\n<p><strong>Teresa<\/strong><\/p>\n<p>A primeira vez que vi Teresa<br \/>\nAchei que ela tinha pernas est\u00fapidas<br \/>\nAchei tamb\u00e9m que a cara parecia uma perna<\/p>\n<p>Quando vi Teresa de novo<br \/>\nAchei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo<br \/>\n(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)<\/p>\n<p>Da terceira vez n\u00e3o vi mais nada<br \/>\nOs c\u00e9us se misturaram com a terra<br \/>\nE o esp\u00edrito de Deus voltou a se mover sobre a face das \u00e1guas.<\/p>\n<p>Outro poema caracter\u00edstico de Manuxel Bandeira \u00e9 o\u00a0Vou-me embora para Pass\u00e1rgada.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40181\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/8-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/8-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/8.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong><em>Bilhete<\/em>, de M\u00e1rio Quintana<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A delicadeza do poema de M\u00e1rio Quintana come\u00e7a j\u00e1 no t\u00edtulo:\u00a0<em>Bilhete<\/em>\u00a0anuncia um tipo de recado direto, apenas partilhado entre os amantes. Os versos fazem uma elegia ao amor discreto, sem grandes alardes, partilhado unicamente entre os apaixonados.<\/p>\n<p><strong>Bilhete<\/strong><\/p>\n<p>Se tu me amas, ama-me baixinho<br \/>\nN\u00e3o o grites de cima dos telhados<br \/>\nDeixa em paz os passarinhos<br \/>\nDeixa em paz a mim!<br \/>\nSe me queres,<br \/>\nenfim,<br \/>\ntem de ser bem devagarinho, Amada,<br \/>\nque a vida \u00e9 breve, e o amor mais breve ainda\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40182\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/9-1-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/9-1-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/9-1.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li><strong><em>Amar voc\u00ea \u00e9 coisa de minutos\u2026<\/em>, de Paulo Leminski<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Os versos livres de Leminski s\u00e3o direcionados diretamente \u00e0 amada e seguem o tom de uma conversa. Apesar de ser um poema contempor\u00e2neo, os versos parecem anacr\u00f4nicos porque prometem uma fidelidade total e absoluta seguindo os moldes do amor rom\u00e2ntico.<\/p>\n<p><strong>Amar voc\u00ea \u00e9 coisa de minutos\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Amar voc\u00ea \u00e9 coisa de minutos<br \/>\nA morte \u00e9 menos que teu beijo<br \/>\nT\u00e3o bom ser teu que sou<br \/>\nEu a teus p\u00e9s derramado<br \/>\nPouco resta do que fui<br \/>\nDe ti depende ser bom ou ruim<br \/>\nSerei o que achares conveniente<br \/>\nSerei para ti mais que um c\u00e3o<br \/>\nUma sombra que te aquece<br \/>\nUm deus que n\u00e3o esquece<br \/>\nUm servo que n\u00e3o diz n\u00e3o<br \/>\nMorto teu pai serei teu irm\u00e3o<br \/>\nDirei os versos que quiseres<br \/>\nEsquecerei todas as mulheres<br \/>\nSerei tanto e tudo e todos<br \/>\nVais ter nojo de eu ser isso<br \/>\nE estarei a teu servi\u00e7o<br \/>\nEnquanto durar meu corpo<br \/>\nEnquanto me correr nas veias<br \/>\nO rio vermelho que se inflama<br \/>\nAo ver teu rosto feito tocha<br \/>\nSerei teu rei teu p\u00e3o tua coisa tua rocha<br \/>\nSim, eu estarei aqui<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40183\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/10-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/10-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/10.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"11\">\n<li><strong><em>Amor<\/em>, de \u00c1lvares de Azevedo<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>Amor<\/em>, de \u00c1lvares de Azevedo, \u00e9 um cl\u00e1ssico poema da gera\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica brasileira. Seus versos ilustram uma \u00e9poca e uma postura de devo\u00e7\u00e3o, quase idealizada, entre um homem apaixonado e uma mulher que \u00e9 basicamente contemplada.<\/p>\n<p>Embora o\u00a0poema\u00a0seja, de certa forma,\u00a0o retrato de uma \u00e9poca, os versos s\u00e3o t\u00e3o bem compostos que transcendem o tempo.<\/p>\n<p><strong>Amor<\/strong><\/p>\n<p>Amemos! Quero de amor<br \/>\nViver no teu cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nSofrer e amar essa dor<br \/>\nQue desmaia de paix\u00e3o!<br \/>\nNa tu&#8217;alma, em teus encantos<br \/>\nE na tua palidez<br \/>\nE nos teus ardentes prantos<br \/>\nSuspirar de languidez!<br \/>\nQuero em teus l\u00e1bio beber<br \/>\nOs teus amores do c\u00e9u,<br \/>\nQuero em teu seio morrer<br \/>\nNo enlevo do seio teu!<br \/>\nQuero viver d&#8217;esperan\u00e7a,<br \/>\nQuero tremer e sentir!<br \/>\nNa tua cheirosa tran\u00e7a<br \/>\nQuero sonhar e dormir!<br \/>\nVem, anjo, minha donzela,<br \/>\nMinha&#8217;alma, meu cora\u00e7\u00e3o!<br \/>\nQue noite, que noite bela!<br \/>\nComo \u00e9 doce a vira\u00e7\u00e3o!<br \/>\nE entre os suspiros do vento<br \/>\nDa noite ao mole frescor,<br \/>\nQuero viver um momento,<br \/>\nMorrer contigo de amor!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40184\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/11-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/11-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/11.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"12\">\n<li><strong><em>Cantiga para n\u00e3o morrer<\/em>, de Ferreira Gullar<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Um dos maiores poetas da literatura brasileira, Ferreira Gullar, ficou mais conhecido por seus versos pol\u00edticos e de cunho social. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel encontrar em sua po\u00e9tica trabalhos dedicados ao amor, p\u00e9rolas pontuais\u00a0como\u00a0<em>Cantiga para n\u00e3o morrer<\/em>. Apesar de ser um autor contempor\u00e2neo, Gullar\u00a0usa alguns tra\u00e7os rom\u00e2nticos em seu poema.<\/p>\n<p>O afeto pela amada \u00e9 t\u00e3o grande e transbordante que o eu l\u00edrico pede que ele permane\u00e7a com ela em seu pensamento, mesmo que sob a forma de esquecimento.<\/p>\n<p><strong>Cantiga para n\u00e3o morrer<\/strong><\/p>\n<p>Quando voc\u00ea for se embora,<br \/>\nmo\u00e7a branca como a neve,<br \/>\nme leve.<\/p>\n<p>Se acaso voc\u00ea n\u00e3o possa<br \/>\nme carregar pela m\u00e3o,<br \/>\nmenina branca de neve,<br \/>\nme leve no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se no cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o possa<br \/>\npor acaso me levar,<br \/>\nmo\u00e7a de sonho e de neve,<br \/>\nme leve no seu lembrar.<\/p>\n<p>E se a\u00ed tamb\u00e9m n\u00e3o possa<br \/>\npor tanta coisa que leve<br \/>\nj\u00e1 viva em seu pensamento,<br \/>\nmenina branca de neve,<br \/>\nme leve no esquecimento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40185\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/12-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/12-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/12.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"13\">\n<li><strong><em>Casamento<\/em>, de Ad\u00e9lia Prado<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Os versos de Ad\u00e9lia Prado celebram o casamento, as rela\u00e7\u00f5es cotidianas e de longo prazo. Contado quase como uma esp\u00e9cie de historinha, o poema mostra detalhes da intimidade\u00a0da vida a dois e os pequenos afetos que se escondem na rotina do par. Chama a aten\u00e7\u00e3o do leitor a beleza com que \u00e9 real\u00e7ada a cumplicidade do casal.<\/p>\n<p><strong>Casamento<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 mulheres que dizem:<br \/>\nMeu marido, se quiser pescar, pesque,<br \/>\nmas que limpe os peixes.<br \/>\nEu n\u00e3o. A qualquer hora da noite me levanto,<br \/>\najudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.<br \/>\n\u00c9 t\u00e3o bom, s\u00f3 a gente sozinhos na cozinha,<br \/>\nde vez em quando os cotovelos se esbarram,<br \/>\nele fala coisas como \u2018este foi dif\u00edcil\u2019<br \/>\n\u2018prateou no ar dando rabanadas\u2019<br \/>\ne faz o gesto com a m\u00e3o.<br \/>\nO sil\u00eancio de quando nos vimos a primeira vez<br \/>\natravessa a cozinha como um rio profundo.<br \/>\nPor fim, os peixes na travessa,<br \/>\nvamos dormir.<br \/>\nCoisas prateadas espocam:<br \/>\nsomos noivo e noiva.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40186\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/13-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/13-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/13.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"14\">\n<li><strong><em>Beijo eterno<\/em>, de Castro Alves<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O poema abaixo \u00e9 um dos mais importantes exemplares da poesia rom\u00e2ntica brasileira. Castro Alves pinta em sua l\u00edrica um amor pleno, idealizado e eterno. No entanto, como pertence \u00e0 terceira fase do Romantismo, Castro Alves j\u00e1 inclui em seus versos alguma sensualidade relacionada \u00e0 amada.<\/p>\n<p><strong>Beijo eterno<\/strong><\/p>\n<p>Quero um beijo sem fim,<br \/>\nQue dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!<br \/>\nFerve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,<br \/>\nBeija-me assim!<br \/>\nO ouvido fecha ao rumor<br \/>\nDo mundo, e beija-me, querida!<br \/>\nVive s\u00f3 para mim, s\u00f3 para a minha vida,<br \/>\nS\u00f3 para o meu amor!<\/p>\n<p>Fora, repouse em paz<br \/>\nDormindo em calmo sono a calma natureza,<br \/>\nOu se debata, das tormentas presa,<br \/>\nBeija inda mais!<br \/>\nE, enquanto o brando calor<br \/>\nSinto em meu peito de teu seio,<br \/>\nNossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,<br \/>\nCom o mesmo ardente amor!<\/p>\n<p>Diz tua boca: &#8220;Vem!&#8221;<br \/>\nInda mais! diz a minha, a solu\u00e7ar&#8230; Exclama<br \/>\nTodo o meu corpo que o teu corpo chama:<br \/>\n&#8220;Morde tamb\u00e9m!&#8221;<br \/>\nAi! morde! que doce \u00e9 a dor<br \/>\nQue me entra as carnes, e as tortura!<br \/>\nBeija mais! morde mais! que eu morra de ventura,<br \/>\nMorto por teu amor!<\/p>\n<p>Quero um beijo sem fim,<br \/>\nQue dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!<br \/>\nFerve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!<br \/>\nBeija-me assim!<br \/>\nO ouvido fecha ao rumor<br \/>\nDo mundo, e beija-me, querida!<br \/>\nVive s\u00f3 para mim, s\u00f3 para a minha vida,<br \/>\nS\u00f3 para o meu amor!<\/p>\n<p><u>O navio negreiro<\/u>\u00a0\u00e9 outro grande poema de autoria de Castro Alves que merece ser conhecido.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40187\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/14-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/14-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/14.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"15\">\n<li><strong><em>O amor comeu meu nome<\/em>, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O poema abaixo \u00e9 um dos mais belos monumentos ao amor presente na literatura brasileira. Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto consegue descrever com precis\u00e3o, em algumas linhas, como \u00e9 estar apaixonado, como o sentimento de amor se apossa do sujeito e se alastra na vida cotidiana.<\/p>\n<p>O amor comeu meu nome, minha identidade, meu<br \/>\nretrato. O amor comeu minha certid\u00e3o de idade,<br \/>\nminha genealogia, meu endere\u00e7o. O amor comeu<br \/>\nmeus cart\u00f5es de visita. O amor veio e comeu todos<br \/>\nos pap\u00e9is onde eu escrevera meu nome.<br \/>\nO amor comeu minhas roupas, meus len\u00e7os, minhas<br \/>\ncamisas. O amor comeu metros e metros de<br \/>\ngravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o<br \/>\nn\u00famero de meus sapatos, o tamanho de meus<br \/>\nchap\u00e9us. O amor comeu minha altura, meu peso, a<br \/>\ncor de meus olhos e de meus cabelos.<br \/>\nO amor comeu meus rem\u00e9dios, minhas receitas<br \/>\nm\u00e9dicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,<br \/>\nminhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus<br \/>\ntestes mentais, meus exames de urina.<br \/>\nO amor comeu na estante todos os meus livros de<br \/>\npoesia. Comeu em meus livros de prosa as cita\u00e7\u00f5es<br \/>\nem verso. Comeu no dicion\u00e1rio as palavras que<br \/>\npoderiam se juntar em versos.<br \/>\nFaminto, o amor devorou os utens\u00edlios de meu uso:<br \/>\npente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto<br \/>\nainda, o amor devorou o uso de<br \/>\nmeus utens\u00edlios: meus banhos frios, a \u00f3pera cantada<br \/>\nno banheiro, o aquecedor de \u00e1gua de fogo morto<br \/>\nmas que parecia uma usina.<br \/>\nO amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu<br \/>\na \u00e1gua dos copos e das quartinhas. Comeu o p\u00e3o de<br \/>\nprop\u00f3sito escondido. Bebeu as l\u00e1grimas dos olhos<br \/>\nque, ningu\u00e9m o sabia, estavam cheios de \u00e1gua.<br \/>\nO amor voltou para comer os pap\u00e9is onde<br \/>\nirrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.<br \/>\nO amor roeu minha inf\u00e2ncia, de dedos sujos de tinta,<br \/>\ncabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.<br \/>\nO amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,<br \/>\ne que riscava os livros, mordia o l\u00e1pis, andava na rua<br \/>\nchutando pedras. Roeu as conversas, junto \u00e0 bomba<br \/>\nde gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam<br \/>\nsobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas<br \/>\nde autom\u00f3vel. O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a<br \/>\n\u00e1gua morta dos mangues, aboliu a mar\u00e9. Comeu os<br \/>\nmangues crespos e de folhas duras, comeu o verde<br \/>\n\u00e1cido das plantas de cana cobrindo os morros<br \/>\nregulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo<br \/>\ntrenzinho preto, pelas chamin\u00e9s. Comeu o cheiro de<br \/>\ncana cortada e o cheiro de maresia. Comeu at\u00e9 essas coisas de<br \/>\nque eu desesperava por n\u00e3o saber falar<br \/>\ndelas em verso.<br \/>\nO amor comeu at\u00e9 os dias ainda n\u00e3o anunciados nas<br \/>\nfolhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de<br \/>\nmeu rel\u00f3gio, os anos que as linhas de minha m\u00e3o<br \/>\nasseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro<br \/>\ngrande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da<br \/>\nterra, as futuras estantes em volta da sala.<br \/>\nO amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e<br \/>\nminha noite. Meu inverno e meu ver\u00e3o. Comeu meu<br \/>\nsil\u00eancio, minha dor de cabe\u00e7a, meu medo da morte.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-40188\" src=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/15-360x250.jpg\" alt=\"\" width=\"360\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/15-360x250.jpg 360w, https:\/\/gilfuentes.com.br\/novo\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/15.jpg 734w\" sizes=\"auto, (max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>#poema#liz#amor<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 bastante prov\u00e1vel que os primeiros versos tenham brotado da boca de um apaixonado, jamais saberemos. 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