O iceberg da informação; Por que entendemos cada vez menos aquilo que consumimos?

Postado em 19 de fevereiro de 2026

 

Artigo assinado pelo cientista de dados Ricardo Cappra.

 

Vivemos cercados por informações. Gráficos, rankings, indicadores, estatísticas que prometem clareza e objetividade. Nunca tivemos tanto acesso a dados e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil compreender o que eles realmente significam. A sensação de entendimento é confortável, mas enganosa. O que consumimos é apenas a ponta de um iceberg.

 

Na superfície estão as informações prontas: manchetes, dashboards, relatórios, números organizados para rápida leitura. Abaixo da linha d’água, invisível para a maioria das pessoas, está a parte mais decisiva do processo: como os dados foram coletados, quais recortes foram feitos, que critérios utilizaram na sua organização e quais narrativas são construídas a partir deles. É nesse espaço oculto que a realidade começa a ser moldada.

 

A cultura orientada por dados criou uma falsa ideia de neutralidade. Números parecem incontestáveis. Algoritmos transmitem autoridade. Mas dados não falam sozinhos. Eles são escolhidos, tratados e interpretados. Cada gráfico carrega decisões anteriores, interesses explícitos ou implícitos e vieses que raramente aparecem na superfície da informação.

 

Esse fenômeno afeta tanto empresas quanto a sociedade. Decisões corporativas são tomadas a partir de indicadores que mostram eficiência, mas escondem impactos humanos. Políticas públicas se apoiam em estatísticas que ignoram contextos sociais. Sistemas automatizados reproduzem desigualdades sob a aparência de racionalidade técnica. A informação pode estar correta e, ainda assim, ser insuficiente ou enganosa.

 

Ricardo Cappra

 

 

O avanço da inteligência artificial aprofunda esse iceberg. Ferramentas capazes de gerar análises e narrativas sofisticadas proporcionam um resultado ainda mais convincente, enquanto o processo que o sustenta se torna menos auditável. Quanto melhor a história, menor a curiosidade sobre sua origem. A pergunta deixa de ser “isso é verdadeiro?” e passa a ser “como isso foi construído?”.

 

Informação não é apenas dado, nem apenas narrativa. É a combinação dos dois. Quando esse equilíbrio se rompe, caímos em dois extremos igualmente perigosos: números sem sentido ou histórias sem lastro na realidade. Em ambos os casos, perdemos capacidade crítica.

 

Mergulhar no iceberg da informação não é um exercício técnico, mas um gesto de responsabilidade. Questionar recortes, pedir contexto, entender premissas e limites deixou de ser opcional. Em um mundo orientado por dados, quem aceita apenas a superfície corre o risco de confundir clareza com verdade e informação com ilusão.

 

 

 

 

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