Filme sobre ditadura paraguaia vence Festival Bonito CineSur
Postado em 04 de agosto de 2026

Cinema não serve apenas para entreter; serve para não deixar que a memória mude de lado. Foi exatamente esse o tom do encerramento da quarta edição do Bonito CineSur, realizado no Centro de Convenções de Bonito (MS). Entre troféus e discursos inflamados, o festival provou que a produção audiovisual sul-americana está mais viva — e necessária — do que nunca.
O grande vencedor da categoria de melhor longa-metragem sul-americano pelo júri oficial foi o paraguaio ¿Quién Mató a Narciso?, dirigido por Marcelo Martinessi. Inspirado no livro de Guido Rodríguez Alcalá, o filme resgata um crime real de 1959: o assassinato de Bernardo Aranda, um jovem locutor de rádio homossexual queimado enquanto dormia.
O crime jamais foi solucionado oficialmente, mas carrega as digitais da ditadura de Alfredo Stroessner — o regime militar mais longo da América do Sul, marcado por prisões arbitrárias, torturas e uma perseguição implacável à comunidade LGBT+.
Ao receber o prêmio, o ator Diro Romero lembrou que olhar para trás é a única forma de proteger o futuro:
“Sentimos que há indícios de que a ditadura segue entre nós […]. Este é o momento de abrir os olhos e nós, através do cinema, vamos fazer com que isso não chegue novamente.”
Meio ambiente e resistência em cena
Outro nome de destaque na noite foi o diretor colombiano Alejandro Calderón, que levou três estatuetas para casa. Ele venceu na categoria de melhor curta de cinema ambiental com Hipopótamos, el Arca de Escobar e dominou os prêmios de melhor longa ambiental (júri e público) com o documentário Páramos II: El Origen.
Ao subir ao palco, Calderón dedicou suas conquistas aos mais de 150 ativistas ambientais assassinados na Colômbia nos últimos três anos, ressaltando que o cinema serve como um escudo de visibilidade para quem arrisca a vida na linha de frente da preservação.
O cinema sul-americano como bloco
Mais do que uma entrega de prêmios, o Bonito CineSur se consolida como um ponto de integração. Com 32 filmes de dez países exibidos nesta edição, o diretor do festival, Nilson Rodrigues, defendeu que a América do Sul precisa agir como um bloco econômico e cultural unificado, facilitando coproduções e políticas públicas bilaterais.
Palmarés: Confira os vencedores do Bonito CineSur
- Melhor Longa Sul-Americano: ¿Quién Mató a Narciso? (Paraguai) – Júri Oficial | Naira (Peru) – Júri Popular
- Melhor Curta Sul-Americano: Sukua (Colômbia) – Júri Oficial | A Vida de Jerônimo Dentro e Fora da Casca (Brasil) – Júri Popular
- Melhor Longa Ambiental: Páramos II: El Origen (Colômbia) – Unanimidade (Júri Oficial e Popular)
- Melhor Curta Ambiental: Hipopótamos, el Arca de Escobar (Colômbia) – Júri Oficial | Buen Vivir – Ñutse Canseye (Equador) – Júri Popular
- Melhor Filme Sul-Mato-Grossense: Natasha – Júri Oficial | Higa Ke – Olho por Olho – Júri Popular
Foto: © Elaine Patricia Cruz/Agência Brasil





